

Nem todo mundo sabe morrer. Quanto mais eu, que não sei de nada. Nem o nome da minha mais nova heroína.
A finada tia da minha terapeuta. É,ela mesma. Ela soube morrer.
Foi o 2º caso desse gênero de câncer no mundo. Entre trilhões de pessoas que viveram em milhares de anos, só se tem registro de duas com esse câncer e foi (in)justamente a tia da minha psicóloga quem contraiu.
Eu acredito que Deus escreve certo por linhas tortas. Vai ver só essas duas pessoas iam saber morrer. Não sei, não sei de nada. Só suspeito.
Essa senhora contraiu há 7 anos atrás câncer na vagina. A dor que essa pessoa sentiu pode ser fielmente comparada com tortura nazista. Anos de sofrimento, queimação, quimioterapia, radioterapia e tudo mais que uma pessoa com um câncer raro tem direito. Anos mais tarde o tumor deu uma trégua. Mas não por muito tempo.
Logo apareceu uma macha avermelhada na perna dela. "Ah, eu devo ter batido em algum móvel, não foi nada." É, não foi nada de mais. Só o tumor voltando. Mas até o médico atender a titia já haviam passado mais de 5 meses. O suficiente para que o câncer atingisse os ossos, que ao fim de seus dias estavam partidos em diversos lugares, devido ao câncer. Prefiro nem imaginar a dor dessa senhora de ter a perna toda quebrada... Mas nem na última hora de vida ela conseguiu ser egoísta: preferiu dar força pros filhos do que entrar em pânico e se desesperar. Ao que o médico declarou a falência dos rins, ela se preparava para a morte.
Recebeu um por um, filhos e netos. Disse tudo que havia por dizer. Consolou o marido e proibiu-o de chorar, afinal ela estava indo encontrar o Criador. Que ninguém sofresse ou se preocupasse, por que o sofrimento e as preocupações dela morriam ali, naquela cama de hospital. Ela ia em paz. E com muita garra. Agradeceu ao médico pelos cuidados e dedicação e fez seu último pedido: "Obrigada por tudo, doutor. Agora já pode me desligar."
Minha heroína. Exemplo pra toda vida. Não precisei saber do nome. Ela soube morrer, e isso já me basta.
